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Projeto resgata público que quer voltar a estudar e se qualificar

INSTITUCIONAL Data de Publicação: 23 nov 2018 07:35 Data de Atualização: 26 nov 2018 08:23
Nem sempre por escolha própria, entramos rapidamente no mercado de trabalho. Precisamos pagar as contas para sustentar a nós mesmos e a nossa família. O expediente e a rotina não deixam espaço para o estudo que, como sonho, persiste. Ou, às vezes, falta simplesmente que a oportunidade chegue, de algum modo, a nós. Esta é a história de muitos trabalhadores formais e informais, desempregados e integrantes de outros grupos sociais que querem voltar a estudar e se qualificar.
 
Era preciso trazer essas pessoas para o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). O objetivo deu origem ao Edital Proen/Proex 01/2018, “Busca Ativa de Público da EJA_EPT”, elaborado pela Comissão Permanente de Integração dos Programas Sociais do IFSC (CIPS) . Destinado à busca de trabalhadores para cursos Proeja e processo de reconhecimento de saberes profissionais (Certific), o edital resultou em novos estudantes para a instituição.
 
“O Brasil tem atualmente cerca de 80 milhões de adultos com mais de 15 anos que não possui educação básica, justamente porque tiveram que priorizar o trabalho em detrimento do estudo. Por esta razão, o Documento Orientador da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no IFSC denomina ‘trabalhadores estudantes’ o público da EJA”, explica Claudia Hickenbick, coordenadora do Certific.
 
Para alcançar esse público específico, a divulgação dos editais do IFSC, geralmente feita pela internet e outros meios de comunicação, foi levada aos ambientes de trabalho e por meio da parceria com associações comerciais e industriais, empresas, associações de bairros, centros de assistência social, escolas das redes municipal e estadual, e a comunidade da região, entre outras estratégias, porque o público da EJA, como conta Claudia, normalmente não acessa editais.
 
Diálogo entre ensino e mercado de trabalho
 
As propostas selecionadas pelo edital visavam atingir os objetivos do Proeja e do Certific, que são, respectivamente, elevar a escolaridade de quem precisou abandonar a escola, e reconhecer os saberes profissionais de quem não teve a formação escolar, mas tem conhecimento prático. No caso do reconhecimento de saberes, o objetivo também é descobrir quais conhecimentos o trabalhador ainda não possui e que são necessários para exercer melhor a profissão. Para estes, é oferecida a complementação da formação. Quem trabalha com vendas, por exemplo, pode precisar aprender matemática financeira ou informática básica.
 
A ideia é estabelecer o diálogo entre a instituição de ensino e o mundo do trabalho. A escola passa a ouvir quem já está trabalhando para saber quais são as reais demandas daquela área. “São os trabalhadores que conhecem o mercado e o que é preciso para trabalhar mais efetivamente”, explica o diretor de Ensino do IFSC, Orlando Campanini.
 
O edital também atende a grupos sociais específicos, como comunidades indígenas, grupos do Movimento Sem Terra, detentos, grupos quilombolas e imigrantes estrangeiros.
 
“Em Gaspar nós temos uma grande quantidade de estrangeiros e não existe um curso para eles. Muitas vezes são pessoas que já têm curso superior, mas quando vieram, por exemplo, do Haiti para cá, não trouxeram a documentação que comprova o ensino superior. Sem a certificação que vale para o Brasil, esse grupo não consegue emprego na área em que se formaram e acabam aceitando outros trabalhos. Esse grupo fica à margem”, explica Campanini.
 
Ao todo, 9 projetos foram contemplados pelo edital em 8 campi, sendo 5 na modalidade de Proeja e 4 na Certific. O primeiro é direcionado a jovens e adultos que desejam completar a Educação Básica, seja no nível fundamental ou médio,  enquanto que o Certific é para quem comprova que conhece e sabe exercer a profissão, conforme determina o artigo 41 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, relativo ao reconhecimento de saberes, a Portaria MEC/MTE nº 5 de 2014, e a Resolução IFSC, nº 46 /CEPE -2015.
 
Uma pessoa que trabalhou a vida inteira como padeiro ou garçom, por exemplo, mesmo não tendo diploma ou certificado conhece a técnica porque aprendeu no ofício. O trabalhador é certificado e qualificado no que falta para complementar a profissão.
 
Estudar e Permanecer
 
Bolsista do edital enquanto cursava o técnico em Cozinha do IFSC, Anastacia Francisco de Mello diz que a experiência foi interessante e as pessoas eram receptivas. “A maioria ficava feliz com a chance de voltar a estudar e depois retornar para o mercado de trabalho com um currículo melhor. Senti bastante que as pessoas querem voltar para a escola, mas falta motivação ou alguém que mostre o caminho. O edital foi uma ótima oportunidade para repensar como divulgar os cursos e fazer esses alunos chegarem ao IFSC”, conta.
 
Além de pensar estratégias para alcançar esses públicos, para a pedagoga Meimilany Gelsleichter, do Câmpus Continente-Florianópolis, que participou do processo, é preciso se aprofundar na realidade de cada aluno.
 
“Na vida diária as pessoas têm muita dificuldade de conciliar o trabalho com os estudos. Muitos desistem porque não conseguem trocar horário de trabalho ou não têm quem cuide dos filhos. Alguns vêm, rompem essa primeira etapa de chegar à escola, mas moram longe, trabalham oito, nove horas por dia, o organismo não aguenta e eles vão perdendo força. Fazer esse público estudar e permanecer exige mais alicerces, como conhecer o perfil dos alunos e ter um programa de assistência estudantil forte”, argumenta.
 
Novos alunos matriculados e prêmios
 
No Câmpus Florianópolis-Continente, o edital resultou em 30 novos alunos matriculados no Proeja Panificação e em Criciúma serão beneficiados pelo Certific cerca de 75 apenados, os homens no perfil profissional Montadores de Esquadrias de Alumínios e as mulheres em Boas Práticas para Manipuladores de Alimentos.
 
O primeiro encontro com o grupo de apenados aconteceu em 12 de novembro, com a participação das coordenadoras do Certific, Claudia Hickenbick, e do Proeja, Elenita Eliete de Lima Ramos.
 
“Não há dúvida quanto à relevância do trabalho desenvolvido no Câmpus Criciúma, sob a coordenação da servidora Marisilvia dos Santos. Participamos da etapa do processo em que acontece a entrevista coletiva onde os homens e as mulheres relataram como desenvolvem o trabalho e demonstraram enorme interesse pela oferta”, afirma Claudia.
 
Coordenado pelo professor Cícero Santiago, o trabalho com apenados no Câmpus Canoinhas resultou na produção do documentário "Para Tecer o Amanhã", que foi premiado no Sepei na Divisão Temática “Desafios educacionais no Brasil de hoje, inovação didática e fazer profissional inclusivo”, com o 3º Lugar, nas apresentações orais.
 
Já no Câmpus São Carlos, a proposta ao Edita Busca Ativa, coordenada pelo professor Felipe José Schmidt, trouxe 53 novos alunos para o curso de operador de computador, ofertado em dois turnos. “O câmpus São Carlos colocou em prática um dos elementos do Documento Orientador da EJA, que é a discussão do projeto pedagógico com os potenciais trabalhadores estudantes”, ressalta Elenita, coordenadora do Proeja na Diretoria de Ensino (Diren) do IFSC.
 
A apresentação do Edital de Busca Ativa durante a 42ª Reunião Anual dos Dirigentes das Instituições Federais de Educação Profissional e Tecnológica (Reditec) rendeu ao IFSC um prêmio destaque na categoria Acesso, Permanência e Êxito do evento. A Reditec foi realizada em setembro em Búzios (RJ), no Instituto Federal Fluminense (IFF). Além disso, o trabalho, apresentado pelas servidoras Claudia Hickenbick e Liziane Lessak, durante o Sepei 2018, ganhou o 3º lugar no II Prêmio IFSC de Inovação.
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