Alunos com deficiência: um post sobre eles e com eles

BLOG DO IFSC Data de Publicação: 22 set 2021 09:10 Data de Atualização: 23 set 2021 15:59

Nesta terça-feira tivemos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, que é sempre em 21 de setembro, conforme Lei nº 11.133/2005. O objetivo da data é conscientizar a população de que as pessoas com deficiência devem ter seus direitos respeitados.

Segundo uma definição do Ministério da Saúde, “pessoa com deficiência é a que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de atividades e requer atenção integral que compreenda ações de promoção, prevenção, assistência, reabilitação e manutenção da saúde.” O Plano de Desenvolvimento Institucional do IFSC tem uma seção destinada especificamente a tratar do atendimento aos alunos com deficiência, abrangendo diversos tipos de deficiência: física, auditiva/surdos, visual, intelectual, múltipla e pessoas com mobilidade reduzida. Além desses discentes, estão contemplados nesta seção os atendimentos especializados para estudantes com altas habilidades/superdotação.

Queremos aproveitar a importância desta data e usar este espaço como mais uma forma de conscientização. Para isso, conversamos com a professora de Educação Especial do IFSC Ivani Cristina Voos e com estudantes com deficiência aqui do nosso Instituto.

É pessoa com deficiência ou portador de necessidades especiais?

A nomenclatura correta é pessoa com deficiência, sem abreviação ou sigla (PcD também está errado). Inclusive, tem um decreto legislativo de 2018 que estabelece este termo.  A professora Ivani nos explicou que esta é uma luta de muito tempo das próprias pessoas, que reivindicam uma nomenclatura mais próxima do movimento anticapacitista e que possa representar a pessoa antes de qualquer outra característica humana. 

Uma pessoa não se encerra na deficiência, esta é mais uma característica humana, mas existem outras que coexistem na pessoa. 

Quais termos evitar quando se fala de pessoas com deficiência? 

Aluno da inclusão, aluno especial, aluno com necessidades, adaptação de materiais. Tudo isso é equivocado segundo a professora Ivani, pois quando pensamos numa educação na perspectiva da educação inclusiva é importante levar em consideração que os sujeitos que estão ali são diferentes por serem humanos, pelas características que têm e não unicamente pela característica da deficiência. 

A deficiência não é uma categoria e muito menos algo a ser tratado de modo isolado ou que deve ser tratada como algo que se arruma, pois falta algo a aquela pessoa. Vejam a explicação da professora do IFSC:

A ideia equivocada que muitas pessoas têm quando falam em "adaptar" materiais ou "adaptar aulas" para esse aluno ou para aquele aluno por uma determinada característica leva a esse entendimento de que para aquela pessoa é preciso oferecer algo diferente, muitas vezes subentendido a partir da ideia de que ele é incapaz. Isso não significa negar a necessidade de recursos de Tecnologia Assistiva, por exemplo, que um determinado aluno possa apresentar. Se tenho um estudante cego na sala de aula, usuário do sistema braille, não vou pedir para todos os alunos escreverem em braille. Não é isso. É preciso acesso ao ensino com materiais em braille. Isso não se trata do conceito de adaptação e sim de equidade. 

Como tratar pessoas com deficiência?

Utilizamos aqui o termo “tratar” no sentido de nos relacionar com quem tem alguma deficiência, mas o próprio termo merece uma reflexão. Como você verá logo mais, nossos alunos com deficiência dizem que querem ser “tratados” de forma normal.

A professora Ivani orienta que tanto os servidores quanto os colegas ajam de maneira natural com os alunos com deficiência. É importante se informar, estudar e, principalmente, conversar com a pessoa com deficiência. Pergunte a ela como ela prefere ser tratada:

“Ninguém sabe mais do seu próprio corpo e de suas necessidades e objetivos de vida do que ela mesma. Nunca terceirize a conversa, fazendo questionamentos aos pais, ao profissional de apoio, se a pessoa estiver na conversa. A não ser que seja de fato algo destinado à pessoa que o acompanha. Por exemplo, já vivi muitas situações de estar junto com um estudante ou amigo com deficiência e o garçom ou atendente da loja chegar em mim e perguntar: o que ela quer? o que ela vai comer? Pergunte direto a ela. Mesmo quando essa pessoa faz uso de sistema alternativo de comunicação, tenha calma e paciência e aguarde. A resposta virá.”

Como o IFSC trabalha a inclusão de alunos com deficiência?

O IFSC possui uma Coordenação de Ações Inclusivas dentro da Pró-Reitoria de Ensino. Cada câmpus também conta com um Núcleo de Acessibilidade Educacional, que agrega profissionais que buscam promover processos educativos em condições de equidade para estudantes com deficiência. 

-> Saiba mais sobre o atendimento ao público da Educação Especial

Temos professores de Educação Especial (EE) para oferecer um Atendimento Educacional Especializado. Mas a professora Ivani ressalta que os alunos com deficiência não são exclusivos do professor da Educação Especial. Na verdade, é ao contrário:

Na perspectiva inclusiva, esse estudante é um aluno como qualquer outro. Tem direitos, mas tem deveres (diferente do que muitos possam pensar, eles não podem e nem devem ser aprovados pelo fato de ser pessoa com deficiência). 

A professora também nos explicou que há alguns equívocos que circulam entre as pessoas sobre o que é o Atendimento Educacional Especializado, conhecido pela sigla AEE:

Não se trata de um atendimento clínico e separado na vida escolar do estudante, no qual o professor da EE entra numa sala e quase que magicamente faz um trabalho que promova um "conserto" de algo que lhe falta. Tão pouco é um espaço de reforço escolar. Não é isso! 

O Atendimento Educacional Especializado é um trabalho que visa identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem ou minimizem as barreiras para a plena participação dos alunos na vida escolar. Este trabalho leva em consideração as características humanas da pessoa, os objetivos que ela quer atingir e os recursos de acessibilidade que precisa, muitas vezes dada a escolha do curso em que está matriculado.

-> Em 2019, o IFSC inaugurou um Laboratório de Tecnologia Assistiva no Câmpus Palhoça Bilíngue, o Labta

Ingresso de alunos com deficiência no IFSC

Pessoas com deficiência ingressam no IFSC pelo mesmo processo seletivo que as demais, ou seja, não há diferenciação na forma de acesso. Porém, há uma reserva de vagas exclusiva para pessoas que estudaram em escolas públicas e possuem alguma deficiência.

-> Veja como funciona essa reserva de vagas 

Alunos do IFSC com deficiência: o que eles pensam sobre o assunto?

Além de falar com uma professora do IFSC especialista neste tema, também conversamos com alguns estudantes do IFSC com deficiência para que eles mesmos pudessem explicar sobre como preferem ser tratados, como veem o dia da luta da pessoa com deficiência e também sobre o que acham de estudar no IFSC. Também vamos compartilhar depoimentos de mães de alunos.

Para começar, veja a fala da nossa estudante Ana Beatriz Bernardino, que tem 16 anos e autismo e faz o curso técnico integrado em Recursos Pesqueiros no Câmpus Itajaí. Ana reflete sobre a importância da data. A mãe dela, Queila Fabiana Moreira, que também faz parte da Associação de Amigos dos Autistas (AMA) de Itajaí, também participou da entrevista: 


Apesar de muita gente não saber, o aluno Fabricio Roger Eggert Herber, do curso técnico em Química do Câmpus Jaraguá do Sul - Centro tem transtorno do Espectro Autista - Grau Leve. Ele entrou no IFSC em 2018, tem atualmente 19 anos e disse que gosta de ser tratado pelos colegas e professores de forma igualitária, sem distinção nenhuma, pois se considera uma pessoa igual a todo mundo: 

“As pessoas, na verdade, nem sabem que eu tenho o Transtorno do Espectro Autista - Grau Leve, pois eu não deixo transparecer muito facilmente, pois existem muitos espectros autistas, isso varia de indivíduo para indivíduo. Mas eu sou muito comunicativo, empático etc. Na verdade, eu não dou muita importância para o que as pessoas falam de mim pelos lugares, pois se tem algo que eu pude aprender nesse tempo de pandemia é: “faça tudo com calma, no seu tempo, mas faça um trabalho bem feito”, e isso vem rendendo bons resultados no IFSC.”

Foto do aluno Fabricio do IFSC

A Júlia Victória Pereira está no segundo ano do curso técnico integrado em Alimentos do Câmpus Canoinhas. Ela é cega de nascença, então nos contou que é triste ver as pessoas “travarem” ao se depararem com alguém com deficiência. 

Foto da aluna Julia do IFSC

Veja as dicas que ela deixa para as pessoas:

Se você trabalha em algum estabelecimento como lojas, restaurantes etc, e  vê uma pessoa com deficiência acompanhada chegando, não se dirija ao acompanhante para perguntar o que a pessoa deseja. Temos nossos gostos e não precisamos que as pessoas respondam por nós. Outra coisa que acaba sendo totalmente ridículo e desconfortável é quando somos infantilizados. As pessoas chegam para nós e acham que estão falando com um bebê. Muitas pessoas acabam atribuindo deficiência com pureza e inocência, isso está totalmente equivocado, pois não paramos no tempo e vamos nos desenvolvendo de acordo com nossa faixa etária. Acredito que ninguém gosta de perceber que o outro está sentindo pena de você. Podemos perceber quando uma pessoa cai. Essa pessoa não quer que você sinta pena, ela quer que você a ajude a se levantar. O mesmo acontece com a gente. Não precisamos que sintam pena, isso é uma experiência horrível.

Além do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, temos o Dia Nacional do Surdo, celebrado em 26 de setembro. A estudante Gabriela da Costa Viana, do curso superior de Pedagogia Bilíngue (Libras-Português) do Câmpus Palhoça Bilíngue gravou um vídeo pra gente falando do seu orgulho de comemorar essa data. Ela nasceu com surdez profunda e começou a aprender a língua de sinais aos 7 anos. 


Já que falamos de uma aluna do nosso Câmpus Palhoça Bilíngue, vamos destacar que o câmpus parte da perspectiva da “diferença” e não da “deficiência”, compreendendo os surdos não como “deficientes” e sim como sujeitos pertencentes a uma “minoria linguística”, que faz uso de uma língua própria.  

A estudante Simone Bitencourt está quase terminando o curso técnico em Logística no Câmpus São Lourenço do Oeste, e também é surda. Ela disse que teve um pouco de dificuldade em acompanhar as atividades no início (diante das atividades não presenciais), mas todos sempre a auxiliaram. 

Entender o moodle e o (Google) meet foi um pouco difícil no início, mas todos sempre me ajudaram bastante, me ensinaram a entender e deixaram tudo mais claro. Agora estou quase me formando, mas foi muito bom para todos e para os professores ter uma aluna surda, adaptaram as atividades, slides e todos os materiais, deixaram mais acessível para todos.

Foto da aluna SImone do IFSC

Estudantes e família se sentem acolhidos no IFSC

Sabemos que ainda podemos e precisamos melhorar em relação ao entendimento de educação especial. Inclusive, um dos pontos é justamente ampliar o número de professores da Educação Especial que também realizam o Atendimento Educacional Especializado. Esta é uma questão que nos desafia e está sempre na nossa pauta.

Ainda assim, ficamos felizes por perceber que, mesmo com algumas dificuldades, conseguimos acolher e atender nossos alunos independente de suas características pessoais. E foram eles que nos disseram! ☺

A Andréa Vieira Arêas tem 37 anos e está se formando neste semestre no curso técnico em Eventos do Câmpus Florianópolis-Continente. Ela sofreu uma lesão medular e, por isso, desde os 21 anos é usuária de cadeira de rodas. 

Foto da aluna andrea do IFSC com colegas

Leia o que ela falou sobre estudar no IFSC:

Fui muito bem acolhida pelo IFSC!!! Desde o início do curso me sinto muito bem, e fui tratada como todos! Isto é muito importante. Fui representante de turma, estou no colegiado, como suplente, e sempre sou muito bem ouvida e respeitada.

Assim que chegou ao IFSC, a estudante Anna Hoeft, que faz o curso técnico integrado em Modelagem do Vestuário no Câmpus Jaraguá do Sul - Centro, já contou a todos que é autista, o que ajudou na conscientização dos colegas também, como ela relata em seu depoimento.


A mãe de Anna, Edlaine Hoeft, nos demonstrou a sua satisfação pela filha - que foi diagnosticada com autismo em 2019 - estudar aqui:


A estudante Geovanice Policen, da quarta fase do curso técnico integrado em Informática do Câmpus Gaspar, também comentou sobre o IFSC e a importância do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Ela é cega, tem 35 anos e estava há muito tempo fora da escola. 


O aluno William Luis Werner Jung, de 20 anos, está cursando a 3ª fase do curso superior de tecnologia em Gestão de Turismo no Câmpus Florianópolis-Continente. Ele tem epilepsia desde os dois anos de idade, toma vários medicamentos por dia para controlar as convulsões e por isso tem deficiência cognitiva e de visão. 

Foto do aluno William do IFSC

Veja o que ele nos escreveu:

"Não sinto bullying no IFSC. Todo mundo se ajuda. Os professores são muito dispostos e meus colegas também. Nem sei se sabem que tenho epilepsia, me tratam de igual pra igual. Isso é muito legal, é uma maneira justa de ser tratado. Tenho mais dificuldade para entender algumas coisas, mas não é isso que me diferencia de outra pessoa. Me considero capaz como qualquer um. Claro, algumas atividades são mais difíceis de serem compreendidas, mas isso é comum, também para outros colegas."

O acolhimento é responsabilidade de todos

Como vocês puderam perceber pelos depoimentos de nossos estudantes e de alguns familiares, o acolhimento não vem só pelos professores ou pelo profissional de Atendimento Educacional Especializado, mas também e especialmente dos colegas. Todos precisam compreender a importância de que antes de ter uma deficiência, todos são pessoas e são capazes de realizar as atividades e conviver com os demais, ainda que eventualmente precisem de alguma adaptação, como a tradução para Libras. 

E se você quer entender um pouco mais sobre o assunto veja a cartilha elaborada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comped) de Lages, que contou com o apoio do IFSC para a tradução e interpretação para Libras.

-> Clique aqui para acessar a cartilha

Tem mais algum ponto quando falamos de pessoas com deficiência que você acha importante abordarmos? Escreva pra gente no e-mail blog@ifsc.edu.br.

Outros materiais

-> Dicas de Atendimento ao Público com Deficiência da ENAP
-> Contracartilha de acessibilidade: reconfigurando o corpo e a sociedade

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