ESPECIAL Data de Publicação: 16 jul 2026 17:48 Data de Atualização: 16 jul 2026 18:33
O hall de entrada do Câmpus Florianópolis do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) transformou-se na última semana em uma verdadeira janela para as tradições da Ilha. A exposição fotográfica "Fragmentos: Valorizando a Tradição da Renda de Bilro" trouxe ao público cerca de 40 imagens produzidas por estudantes da disciplina de Fotografia, do curso de Bacharelado em Design. O projeto, realizado em parceria com o Coletivo Casa das Rendas do Campeche, marca a união entre a prática acadêmica e a preservação do patrimônio imaterial de Florianópolis.
O contato inicial entre o curso de Design e as rendeiras surgiu por meio da aluna Paloma Elisa, que já participava do coletivo e atua no Programa de Educação Tutorial (PET Design). Segundo a professora orientadora Deise Albertazzi Gonçalves Tomelin, a ideia era proporcionar aos estudantes uma vivência além do laboratório. "O objetivo foi fazer com que os alunos tivessem essa oportunidade de fazer fotografias fora do ambiente controlado de sala de aula e, principalmente, conseguir resgatar e ajudar a preservar uma tradição aqui de Florianópolis tão linda como a renda de bilro," explica a docente.
A recepção do projeto pela comunidade do Campeche foi imediata e calorosa. Ema Daniel, rendeira participante do coletivo, conta que a iniciativa foi vista como um ato de resistência cultural. "Sabemos que o nosso fazer vai além da peça pronta; ele carrega o patrimônio imaterial da região. Ver o IFSC interessado nisso nos fez sentir que o que tecemos não é apenas renda, é documento vivo," relata Ema. Para garantir que as fotografias não fossem apenas registros técnicos, a equipe de estudantes e a professora realizaram cinco visitas à Capelinha São Sebastião, sede do coletivo.
A primeira semana foi dedicada exclusivamente à escuta e à criação de vínculos, o que moldou o olhar dos futuros designers. "A turma da Deise não chegou com equipamentos pesados e uma distância fria; eles se sentaram conosco. E aí veio a magia: eles captaram justamente as nossas 'Rodas de Renda Cantada'. As fotos pegaram o movimento dos bilros, sim, mas também flagraram nossas bocas cantando as antigas 'ratoeiras' e 'cantigas de trabalho'," relembra a rendeira Ema.
Todo o processo de seleção das imagens também foi feito de forma conjunta. Antes de a exposição ser montada no câmpus, a equipe levou as fotografias para as rendeiras aprovarem. "Foi praticamente uma sessão de cinema que a gente fez, expondo as fotos, foi muito legal. E elas se sentiram muito valorizadas, foi lindo ver o brilho no olhar delas," detalha a professora Deise. Além da exposição física, as imagens e um vídeo produzido durante os encontros farão parte de um acervo digital que será compartilhado com o grupo.
O papel da extensão
Viabilizada pelo Edital PROEX de fomento à curricularização da extensão, a iniciativa vai ao encontro da Lei nº 7.667/2008, que declara a renda de bilro como bem cultural de inestimável importância. Para os alunos, a experiência de 40 horas dedicadas à direção, captação, edição e montagem representou um grande crescimento profissional e pessoal ao lidarem com um público fora de seu círculo habitual.
Já para a comunidade, a presença do Instituto Federal no bairro representa a legitimação de um saber ancestral. "Para o nosso coletivo, essa parceria quebra um isolamento histórico. Quando a instituição abraça os nossos modos de fazer tradicionais e os leva para dentro da sala de aula, ela está dizendo que o saber da Dona Ema e de todas as rendeiras tem o mesmo peso de qualquer teoria," avalia Ema Daniel, ressaltando que ações como essa mostram às novas gerações que a renda de bilro é também uma profissão e um futuro.