PESQUISA Data de Publicação: 12 ago 2026 12:41 Data de Atualização: 12 ago 2026 12:49
Um estudo publicado com a participação da professora Charlene da Silva, do Câmpus Florianópolis do IFSC, ganhou destaque: “Risco de câncer em comunidades e trabalhadores expostos a derramamento de petróleo: uma revisão de escopo”, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, reúne evidências científicas sobre os efeitos do contato com petróleo em populações expostas e reforça a importância da vigilância em saúde, do monitoramento de longo prazo e da formulação de políticas públicas específicas para esses grupos.
A pesquisa parte de um problema ainda pouco sistematizado na literatura: os impactos carcinogênicos associados a derramamentos de petróleo, especialmente entre trabalhadores da limpeza, pescadores artesanais e moradores de áreas costeiras afetadas. Ao analisar estudos publicados entre 1989 e 2025, as autoras identificaram evidências de risco relacionado à exposição ao petróleo, com efeitos que variam conforme a intensidade, o tempo e a via de contato com os contaminantes. São coautores do artigo, além da professora Charlene, Rita de Cássia Franco Rêgo e Rafael Moreno Aguiar, da Universidade Federal da Bahia; e Juliana dos Santos Müller, também professora do IFSC.
Charlene explica que o trabalho nasceu de uma agenda de pesquisa mais ampla sobre os impactos do derramamento de petróleo ocorrido no Brasil entre 2019 e 2020. “Meu doutorado faz parte de um projeto maior, que busca analisar os impactos do derramamento de petróleo que atingiu o Brasil entre 2019 e 2020”, afirma. Segundo ela, a ideia inicial era investigar epidemiologicamente o risco de câncer entre pescadores artesanais, mas a limitação dos dados disponíveis exigiu outro caminho metodológico.
“Os dados disponíveis naquele momento não eram suficientes para produzir essas estimativas epidemiológicas robustas sobre a exposição e o desfecho do câncer”, relata a professora. “Então, por causa dessa limitação de dados, eu optei por fazer essa revisão de literatura para compreender o que já havia sido produzido sobre essa relação entre derramamento de petróleo e a doença.”, complementa.
Evidências e vulnerabilidades
A revisão identificou nove estudos, organizados em três frentes: níveis de exposição, análises citogenéticas e incidência de câncer. Entre os achados, estão a presença de riscos elevados em áreas com alta concentração de benzeno, alterações cromossômicas em pescadores expostos e aumento na incidência de câncer de tireoide e leucemia em populações atingidas pelo desastre Hebei Spirit, na Coreia do Sul.
Na avaliação da professora, o estudo ajuda a deslocar o debate sobre desastres ambientais para além da contaminação imediata. “Quando a gente pensa em um derramamento de petróleo, a gente não pode olhar apenas para a contaminação ambiental ou para os efeitos imediatos da saúde. Precisa considerar também o trabalho, a renda, os modos de vida e as condições sociais daquela comunidade.”, explica.
Esse olhar ampliado é especialmente relevante para o contexto brasileiro, em que pescadores artesanais e moradores de regiões costeiras costumam enfrentar maior vulnerabilidade social e dificuldade de acesso a acompanhamento continuado. O artigo destaca que, em muitos casos, as populações expostas também participaram das ações de limpeza, sem proteção adequada, o que amplia a exposição a compostos tóxicos do petróleo.
Charlene reforça que a pesquisa também tem uma dimensão de justiça social. “A vulnerabilidade socioambiental tem o potencial de ampliar esses impactos e limitar a capacidade de resposta dessa população, principalmente a capacidade de resposta dos próprios entes do governo. Por isso, eu acredito que a pesquisa tem essa reflexão importante, que é a necessidade de políticas públicas que garantam o acompanhamento contínuo dessa população.”, reforça.
Monitoramento e políticas públicas
Um dos pontos centrais do artigo é a defesa de acompanhamento por longos períodos, já que o câncer é uma doença de latência prolongada e seus efeitos podem aparecer anos depois da exposição. A revisão aponta, ainda, lacunas importantes de informação prévia aos desastres, o que dificulta comparações entre o antes e o depois e limita a identificação de mudanças na ocorrência de doenças ao longo do tempo. A professora destaca que esse é um dos aspectos mais preocupantes do campo. “Apesar de ter uma ocorrência grande de desastres de derramamento nas últimas décadas, ainda são poucos os estudos que tiveram esse acompanhamento por período prolongado”, complementa a professora. Para ela, isso dificulta muito a comparação entre o período anterior e posterior ao desastre e limita a capacidade de identificar as mudanças na ocorrência de doenças ao longo do tempo.
Segundo ela, a própria baixa produção científica sobre câncer após derramamentos mostra que o tema ainda precisa de mais atenção. A revisão encontrou apenas nove estudos, o que evidencia um campo em construção e com forte dependência de metodologias distintas, populações diversas e contextos ambientais específicos.
Papel do IFSC
A professora destaca que sua trajetória acadêmica e profissional está profundamente ligada ao IFSC. Graduada e mestre pela própria instituição, hoje atua como docente no Câmpus Florianópolis e amplia sua pesquisa para além da radiologia, dialogando com a saúde coletiva e com os impactos sociais dos desastres ambientais.
“Enquanto professora do IFSC, eu me sinto muito orgulhosa de poder dar esse retorno para a sociedade”. Para Charlene, esse percurso profissional dentro do IFSC mostra o potencial do Instituto na formação de profissionais e na produção de conhecimento com impacto social. “Nós, pesquisadores, professores, podemos impactar a vida das pessoas de diferentes formas, não apenas na sala de aula, mas também por meio de pesquisa, produzindo evidência científica que possa contribuir de forma direta para a política pública, para a melhoria de condição de vida e de saúde da população.”, finaliza.
O artigo “Risco de câncer em comunidades e trabalhadores expostos a derramamento de petróleo: uma revisão de escopo” foi publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional e está disponível em acesso online neste link.