Professor do IFSC explica sobre o El Niño e suas possíveis consequências

INSTITUCIONAL Data de Publicação: 12 ago 2026 12:50 Data de Atualização: 12 ago 2026 12:54

Desde o começo do ano, meteorologistas de todo o país têm alertado sobre a passagem do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. O El Niño deve influenciar as condições de tempo em todas as regiões do Brasil nos próximos meses, mas com efeitos diferentes de acordo com a localização. Enquanto áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste podem enfrentar períodos mais quentes e secos, a Região Sul deve receber atenção especial devido à possibilidade de chuvas mais frequentes e intensas durante a primavera e o verão.

A avaliação é do professor Daniel Calearo, do curso técnico em Meteorologia do Instituto Federal de Santa Catarina. Segundo ele, a atuação do fenômeno pode alterar a distribuição da chuva e da temperatura no país, com impactos sobre os níveis dos rios, o risco de incêndios e a ocorrência de tempestades severas. No Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste, a combinação entre menor volume de chuva e temperaturas acima da média pode favorecer a redução da umidade do solo e da vegetação. “De uma forma geral, espera-se que na região Norte e Nordeste e também parte do Centro-Oeste brasileiro, o que deve predominar é uma escassez na chuva, associada a temperaturas acima da normalidade”, explica Calearo.

O professor alerta que esse cenário pode aumentar a vulnerabilidade dessas regiões a incêndios florestais. Na Amazônia, a redução das chuvas também pode afetar a vazão dos rios, que desempenham papel fundamental no transporte, no abastecimento e na rotina das populações ribeirinhas. “Um dos possíveis efeitos associados à questão do El Niño nas regiões Norte e parte do Centro-Oeste do Brasil é o maior risco para incêndios, devido à menor incidência de chuva. Além disso. alguns rios acabam ficando com o volume muito baixo, diminuindo muito a vazão, e que são bastante importantes no Norte do país.”, completa.

No Sul do Brasil, o comportamento esperado é diferente. Calearo alerta que a região entra em um período do ano que, naturalmente, já apresenta aumento da precipitação, o que exige atenção redobrada diante da influência do fenômeno. “A situação é bastante oposta. Geralmente ocorre aumento na precipitação e é o que se espera para esse El Niño. Por conta dele, as precipitações no Sul do Brasil ficam acima da média, especialmente nos meses de setembro e outubro. Há que se ter uma atenção especial.”, completa.

De acordo com o professor, a possibilidade de chuvas acima da média deve ser observada principalmente durante a primavera, quando os volumes normalmente aumentam em relação aos meses de inverno. A expectativa é de que o El Niño alcance o pico da anomalia de temperatura no Oceano Pacífico até o final do ano, período em que seus efeitos podem se tornar mais evidentes. “A previsão é que nos próximos meses, até o final do ano, esse El Niño deva chegar no pico da anomalia de temperatura no Oceano Pacífico. E então, o pico dos seus efeitos também deve estar associado a esse aumento de temperatura oceânica”, afirma.

Intensificação dos eventos extremos

O professor explica que o El Niño não é o responsável direto pela formação de todos os eventos extremos. As chuvas e tempestades são produzidas por sistemas meteorológicos como frentes frias, ciclones e correntes de jato. A influência do fenômeno está na criação de condições que podem tornar esses sistemas mais intensos. No Sul do país, por exemplo, uma maior disponibilidade de umidade na atmosfera pode contribuir para o fortalecimento das instabilidades. “O que é o causador das chuvas e dos eventos extremos? São os sistemas meteorológicos que atuam nas diversas regiões. No Sul do Brasil, nós temos as frentes frias, os ciclones, as correntes de jato, que são os fenômenos causadores da chuva”, explica.

Calearo compara o El Niño ao aumento do volume de uma música: os fenômenos meteorológicos continuam sendo os mesmos, mas passam a atuar em um ambiente mais favorável à intensificação. “O El Niño vai aumentar o tom da música, ou seja, ele vai amplificar o sinal dos eventos que já normalmente ocorrem”, afirma. Com mais umidade disponível, as tempestades podem apresentar maior potencial de destruição, com chuva torrencial, granizo, ventos fortes, vendavais e, em determinadas situações, tornados. “Ele gera um pano de fundo, um cenário mais favorável para que os fenômenos que normalmente ocorrem e que geram as instabilidades ocorram com maior intensidade, porque haverá uma maior disponibilidade do ‘combustível’. Na atmosfera, esse combustível é a umidade”, resume o professor.

Relação com o aquecimento global

A influência do El Niño precisa ser analisada em conjunto com as mudanças provocadas pelo aquecimento global. O fenômeno natural pode ajudar a explicar a ocorrência de determinados padrões de chuva e temperatura em um período específico, mas o aumento da temperatura média do planeta modifica as condições em que esses sistemas atuam. Para Calearo, uma atmosfera mais quente tende a favorecer a ocorrência de eventos meteorológicos mais intensos, especialmente quando há disponibilidade de umidade. “Com os efeitos de mudanças de clima que preconizam aumentos na temperatura do globo, espera-se que haja alterações também no comportamento dos fenômenos associados a El Niño e La Niña”, observa.

O professor ressalta que essa combinação pode ampliar a intensidade de episódios de chuva, tempestades e ventos fortes durante anos de El Niño. “Se num ano de El Niño nós já temos um favorecimento, com mais umidade, mais combustível na atmosfera para que ocorram os eventos extremos, em uma atmosfera mais aquecida, a tendência é que haja um aumento no número dos eventos meteorológicos extremos, especialmente esses associados a ventos intensos, granizo e chuva muito volumosa”, explica.

Efeitos da La Niña

O El Niño e a La Niña são fases opostas do fenômeno conhecido como El Niño-Oscilação Sul, ou ENOS. Enquanto o El Niño está associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, a La Niña corresponde ao resfriamento dessas águas e pode provocar alterações diferentes nos padrões atmosféricos. No Sul do Brasil, a La Niña costuma estar relacionada a menor disponibilidade de umidade e a uma maior facilidade para a chegada de massas de ar frio vindas do sul do continente. Em um planeta mais aquecido, no entanto, a frequência e o comportamento desses episódios podem mudar.

“Numa atmosfera, de uma forma geral, mais aquecida, há uma tendência geral de um enfraquecimento da chegada desses eventos de frio, não que eles deixem de acontecer, mas eles poderão tender a ser menos frequentes”, explica Calearo. Segundo ele, a menor frequência não significa necessariamente que os episódios serão pouco intensos. “Quando acontecerem, eles podem ser muito marcantes”, acrescenta.O professor avalia que o desafio para os próximos anos será compreender como esses fenômenos naturais vão se comportar em um ambiente global cada vez mais quente. Como já dito, a tendência, segundo Calearo, é de amplificação dos extremos, tanto em episódios de chuva e calor quanto em eventuais ondas de frio.

“Os extremos acabam ficando muito amplificados nessas condições de alterações de temperatura global. Se espera, de uma forma geral, que os extremos sejam muito mais frequentes, tanto eventos extremos de chuva, tempestades, mas quando o frio acontecer, ele também seja um evento bastante significante de frio”, conclui Daniel Calearo.
 

INSTITUCIONAL IMPRENSA CÂMPUS FLORIANÓPOLIS