ENSINO Data de Publicação: 23 jan 2026 11:21 Data de Atualização: 09 fev 2026 09:32
O livro “Quem escreve o conhecimento? Um guia para o uso ético, responsável e transparente da Inteligência Artificial Generativa na educação e na pesquisa”, do professor do Câmpus Joinville do IFSC Paulo Roberto Córdova e da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rosa Maria Vicari traz orientações práticas para integrar a IA como instrumento de apoio, sem abrir mão do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da honestidade acadêmica.
A versão digital pode ser baixada gratuitamente no Portal Educapes
O professor Paulo Roberto é doutor em Informática na Educação pela UFRGS, mestre em Desenvolvimento e Sociedade e bacharel em Sistemas de Informação. Em sua tese de doutorado, sob orientação da professora Rosa Maria, estudou o uso ético da IA. Foi dessa pesquisa que surgiu a ideia de publicação de um livro com orientações para professores, estudantes, pesquisadores e demais interessados no uso da IA na educação. “O livro aborda os limites entre o uso da IA como apoio tecnológico e a substituição indevida do trabalho intelectual”, destaca o professor.
O livro trata de questões como o que pode ser apoiado por IA sem comprometer a autoria intelectual; quando o uso da ferramenta configura substituição indevida do trabalho humano; como garantir rastreabilidade, responsabilidade e supervisão e de que modo a transparência protege a integridade acadêmica. Também traz dicas práticas sobre tipos de IA e seus usos específicos.
Na pesquisa de doutorado, o professor Paulo Roberto estudava algoritmos capazes de simular a ética pelas máquinas. Segundo ele, é um campo bastante novo de pesquisa, e ainda não há soluções definitivas. “Não tem nada definido, não tem nenhuma solução nem para a ética entre os humanos, imagina a ética de máquina. Cada contexto é um problema. Para os humanos a ética é uma questão secular e transportar isso para a máquina é um desafio ainda maior”, explica.
Assim, o professor começou a se interessar também sobre questões éticas que vão além do algoritmo, que é o uso que as pessoas fazem da IA. A publicação do livro é uma contribuição para o letramento em IA, para que as pessoas façam um uso justo e correto desta tecnologia, de forma a promover o desenvolvimento humano e não reforçar desigualdades.
Surgimento e popularização da IA
A Inteligência Artificial não é uma tecnologia nova. Desde a década de 1940 já havia debates sobre suas possibilidades, mas foi em 1957 que a IA tornou-se um campo de pesquisa científica. Uma das linhas de desenvolvimento da IA é o processamento da linguagem natural, área que teve um grande destaque a partir de 2017, quando pesquisadores da Google expuseram um modelo matemático capaz de fazer a conexão contextual entre textos mais longos. A partir de então foi possível desenvolver modelos de linguagem, que é o que está por trás das ferramentas, como o ChatGPT, e a chamada IA generativa, que é capaz de gerar conteúdo de forma muito efetiva.
A partir dessas descobertas e a disseminação de ferramentas gratuitas e/ou de baixo custo, a IA começou a se popularizar muito rapidamente, sendo utilizada para as mais variadas tarefas. Porém, o uso indiscriminado tem gerado preocupação entre os pesquisadores. O professor Paulo Roberto alerta que a IA processa dados a partir de fórmulas matemáticas e estatística, não tem “consciência” e não deve ser usada sem a supervisão humana. “Essa é uma das questões que o livro tenta esclarecer. Tentamos deixar claro que a Inteligência Artificial não tem conhecimento de causa, não tem raciocínio causal. Ela não sabe o que ela está escrevendo, é o que a gente chama de semântica distribuicional, associação com termos e geração eficiente de blá blá blá”.
IA na sala de aula e na pesquisa
Um dos campos mais impactados com a popularização da IA é o ensino e a pesquisa, trazendo grandes avanços, mas também preocupações sobre o mau uso. O professor alerta para um fenômeno chamado de “alucinação” da IA, que é quando ela cria textos que parecem verídicos, pela coesão e coerência textuais, mas que na verdade podem trazer informações falsas e/ou distorcidas. Um exemplo comum é a IA inventar fontes e informações em pesquisas.
Por outro lado, a IA pode ser usada de forma eficiente para gerar conteúdos de apresentações em formatos diferentes, como mapas mentais, áudio, vídeo, resumir textos longos e revisão gramatical. Na pesquisa, também pode ser auxiliar para pesquisas bibliográficas, organização de dados, revisão textual, entre outros.
O professor defende que a IA pode ser usada para otimizar vários processos, mas ela não deve substituir a ação humana. “A criatividade é essencialmente humana. A máquina não é criativa, ela só replica coisas, mas pode ser uma excelente ferramenta para melhorar aquilo que é criado pelo ser humano”, completa.
Para o professor, detectar plágio tanto em trabalhos escolares quanto na pesquisa ficou ainda mais complexo, pois a IA pode reescrever textos “copiados” com outras palavras, dando a impressão que se trata de uma produção original. Modelos matemáticos já estão sendo desenvolvidos no sentido de auxiliar na detecção de cópias.
Tanto o conteúdo resultado de “alucinações” da IA quanto plágios exigem mais habilidades dos professores, que devem conhecer o conteúdo e as principais fontes das disciplinas. Outra questão é o professor conhecer o aluno, perceber quando ele entrega um texto com qualidade muito diferente do que costuma entregar, e questioná-lo sobre o conteúdo do trabalho apresentado.
Governança e legislação
A governança – definição de regras claras para uso da IA - deve ser uma preocupação das instituições de ensino, segundo o professor Paulo Roberto. Porém, ele observa que essa discussão não está sendo tratada com a prioridade necessária. “A discussão deve envolver toda a comunidade acadêmica, os técnicos, professores e os estudantes também”, afirma.
Assim, o professor reuniu no livro algumas diretrizes já utilizadas por grandes editoras brasileiras ou organismos internacionais, como a Unesco, com orientações sobre o uso da IA no meio acadêmico. “No Brasil, vamos seguindo o que é criado em outros países. Acredito que em breve as editoras e revistas brasileiras vão adotar essas regras”, prevê o professor. Por exemplo, uma das regras diz que a IA não pode ser citada como coautora de trabalhos, porém, seu uso deve ser referenciado de forma correta. O livro do professor Paulo Roberto traz orientações sobre como fazer essas referências.
Está em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei 2.338/23, que trata da regulamentação do uso da IA no Brasil. O professor Paulo Roberto acredita que a aprovação da lei será um avanço, sendo que o projeto inicial incorpora parâmetros já adotados pela Unesco, OCDE e União Europeia. Porém, os legisladores devem ouvir os especialistas e a sociedade como um todo, e não somente os representantes das Big Techs, grandes empresas desenvolvedoras da IA interessadas em que os países adotem regras mais flexíveis para o uso dessa tecnologia.
De acordo com o professor Paulo Roberto, há várias pesquisas no Brasil no desenvolvimento da IA, mas que não chegam ao nível das grandes empresas do setor, que destinam bilhões para o desenvolvimento desta tecnologia. Assim, é preciso investir e pensar no melhor uso possível dos recursos oferecidos pelas Big Techs.
Quer saber mais sobre o uso da IA na educação e em outras aplicações? Inscreva-se no curso de qualificação profissional em Inteligência Artificial do Câmpus São José, na modalidade a distância. As inscrições vão até 27 de janeiro.
Veja o que já foi publicado no IFSC Verifica sobre Inteligência Artificial:
- A inteligência artificial está nos deixando mais burros?
- Quais os impactos do ChatGPT e da Inteligência Artificial na Educação?