INSTITUCIONAL Data de Publicação: 15 set 2026 11:12 Data de Atualização: 15 set 2026 11:19
A professora Caroline Bresciani, do Câmpus Florianópolis do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), integrou a equipe da missão internacional CoMet 3.0 Tropics. O projeto avalia a concentração e o deslocamento de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) na atmosfera dos biomas Pantanal, Amazônia e Cerrado.
A cooperação técnica une o Centro Aeroespacial Alemão (DLR) a instituições científicas brasileiras, sob coordenação nacional do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e colaboração de centros como o IFSC e a USP. A bordo da aeronave de pesquisa HALO (um modelo Gulfstream G550 adaptado como laboratório voador), os pesquisadores coletam dados em altitudes de até 15 mil metros para refinar projeções climáticas e validar sensores de satélites.
Estratégia de voo e monitoramento atmosférico
A coleta de dados via sensores ópticos remotos exige incidência direta de luz solar e céu desobstruído. Diante dessa exigência técnica, a equipe brasileira assumiu o planejamento meteorológico das rotas e o acompanhamento das condições de tempo e de focos de calor enquanto a aeronave estava no ar. "Nós fazemos toda a parte da previsão, qual é a melhor região, qual a melhor área para fazer o voo daquele dia, qual o dia para ir para cada uma dessas três regiões, que no caso era o foco de agora, o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia. Então, nós fazemos toda a parte da previsão para essa demanda dos voos. Além disso, durante os voos também nós fazemos um monitoramento das condições, principalmente de nebulosidade', explica Caroline.
A equipe passava todas as informações para quem estava nos voos. Outro ponto que ficava a cargo do time de meteorologia era o monitoramento dos focos de incêndio ativos para informar se o avião passaria próximo a algum deles.
Os especialistas brasileiros também atuaram no lançamento e na calibragem das dropsondas, equipamentos ejetados da aeronave durante os trajetos para traçar o perfil termodinâmico vertical da coluna de ar. "Ele é um instrumento que você lança do avião e ele faz toda a medição das variáveis meteorológicas na vertical. Faz os perfis de umidade, perfis de vento, temperatura, tudo a partir da queda desse instrumento do avião. E nós, brasileiros, éramos os responsáveis por fazer esse lançamento. Nós temos todo um treinamento para conseguir manusear o instrumento dentro do avião, tem toda a parte da calibração, organizar a dropsonda e depois o monitoramento dos dados durante a queda dela até atingir o solo.", explica a professora.
Um dos principais objetivos científicos é mensurar a parcela de gases gerada por processos ecológicos normais frente à parcela decorrente da ação antrópica, como a pecuária, queimadas e empreendimentos energéticos. Sobrevoos preliminares detectaram picos de metano vinculados tanto ao ciclo hidrológico do Pantanal quanto à operação de usinas. "Nós vimos um aumento muito grande da emissão de metano, principalmente em áreas do Pantanal que estavam alagadas no início da campanha, depois no final da campanha elas já estavam mais secas, então tem essa diferença. Ou regiões, por exemplo, de produção de energia elétrica, em que tínhamos sobrevoado uma região de usina, onde também tem uma emissão maior. Todo o conjunto de dados ficou com uma cópia no Brasil e a gente já está começando essas análises, mas para ser publicado e disponibilizado para a população posteriormente, é preciso passar por um rigoroso processo de controle de qualidade que demora em torno de dois anos.", complementa Caroline.
Da pesquisa internacional à sala de aula
A vivência nos voos experimentais é transposta para o ensino no IFSC, conectando as discussões teóricas sobre mudanças globais ao transporte de poluentes e fumaça que alcança a Região Sul. Com o auxílio da supercomputação instalada no Câmpus Florianópolis, os registros calibrarão os modelos numéricos locais. "Na sala de aula, a gente consegue trazer isso como exemplo, mostrando para os alunos que há um aumento dessas emissões em algumas regiões do Brasil. Futuramente, conseguimos utilizar esses dados até porque nós estamos numa região em que recebemos tanto gases como material particulado, principalmente das áreas de queimadas. E mesmo em momentos sem queimadas, nós também recebemos esse transporte de gases para cá. Além disso, os modelos que estamos rodando com o supercomputador aqui no IFSC vão se beneficiar desses dados para melhorar ainda mais as previsões geradas internamente.", disse.
No âmbito pessoal, a professora Caroline destaca que a experiência é indescritível, mesmo já tendo participado de campanhas anteriores. Para ela, estar lá no alto, vendo a meteorologia aplicada diante dos olhos é um momento muito marcante. "Participar de campanhas e ver de fato o que está acontecendo é uma experiência que só quem está vivendo e sobrevoando essas áreas consegue sentir e ver a atmosfera acontecendo. No último voo de que participei, sobrevoamos uma área de convecção com formação de nuvens e víamos os fluxos de CO2 e metano se alterando justamente em razão dessa condição. Ou seja, ver a meteorologia acontecendo na vida real, estando lá e presenciando isso, é algo incrível.", finaliza.