EVENTOS Data de Publicação: 02 out 2026 17:11 Data de Atualização: 03 nov 2026 16:58
Professores do Câmpus Florianópolis do IFSC conduziram, no último mês, uma oficina sobre a placa programável BBC Micro:bit para equipes dos Núcleos de Tecnologias Educacionais (NTEs) de Santa Catarina. A atividade integrou o curso “Currículo de Educação Digital: Estratégias de implementação”, promovido pela Secretaria de Estado da Educação (SED) e organizado pela Gerente de articulação e ofertas educacionais Judite da Silva Mattos, entre os dias 16 e 18 de setembro, em Florianópolis.
A formação reuniu 74 servidores de 36 Coordenadorias Regionais de Educação e do Instituto Estadual de Educação. O encontro teve como objetivos apresentar os recursos do BBC Micro:bit em um contexto pedagógico e educacional. A oportunidade surge da parceria entre o Programa de Extensão SC Cria+, desenvolvido pelo IFSC, e a Secretaria de Estado da Educação a convite do Coordenador do setor de tecnologias Educacionais Lauro Roberto Lostada, por intermédio da experiência do projeto-piloto realizado na Regional de Blumenau. A oficina foi conduzida pelos professores Glauco Cardozo, coordenador do SC Cria+, e Bruno Velloso, integrantes do Laboratório de Gestão e Modelagem do Conhecimento (GMOC) do Câmpus Florianópolis. Durante a atividade, os participantes conheceram a placa Micro:bit, realizaram práticas de programação e discutiram possibilidades de uso da ferramenta em projetos pedagógicos.
Segundo Glauco, a oficina também teve a função de aproximar as equipes dos NTEs da proposta do programa e prepará-las para apoiar a implementação de iniciativas semelhantes nas escolas. “O professor Bruno apresentou o hardware, eles fizeram algumas práticas, fizeram algumas programações e ele também apresentou o programa. O pessoal de Blumenau também fez um relato de como está sendo a experiência deles”, explica.
Micro:bit foi tema da oficina
Durante a formação, os participantes conheceram o Micro:bit, um microcontrolador desenvolvido com foco educacional. A placa reúne processador, sensores, botões, matriz de LEDs e outros recursos que podem ser programados para responder a diferentes comandos. O dispositivo pode ser usado em atividades de programação, robótica, coleta de dados, automação e experimentação científica. Por ser compacto e didático, permite que estudantes tenham contato com conceitos de computação e eletrônica de maneira progressiva. “O Micro:bit é, assim como o Arduino, um microcontrolador, um processador que já tem vários sensores e display. Ele foi projetado com uma pegada bem educacional e é bastante didático para o aprendizado das crianças”, explica Glauco.
Na oficina, o professor Bruno Velloso apresentou o funcionamento da placa e orientou os participantes em atividades práticas de programação. A formação também abordou o uso do Micro:bit como recurso pedagógico em sala de aula. O objetivo foi permitir que os profissionais dos NTEs conhecessem a ferramenta e pudessem apoiar professores interessados em desenvolver projetos de educação digital nas escolas.
Como funciona o SC Cria+
O SC Cria+ surgiu a partir da participação do IFSC no programa Mais Ciência na Escola, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A iniciativa federal prevê a implantação de laboratórios maker em escolas públicas. Em 2024, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) foi selecionada para implantar 15 laboratórios. O IFSC ficou em segundo lugar na seleção e foi posteriormente chamado para instalar outros 15 espaços. “Com a implantação desses 15 laboratórios surgiu a necessidade de se criar uma metodologia para que os alunos pudessem aplicar no uso dos laboratórios. Com isso, surgiu o programa SC Cria+”, relata.
O programa organiza o trabalho desenvolvido nos laboratórios maker e transforma esses espaços em ambientes permanentes de aprendizagem, investigação e criação. A proposta é estruturada pelo ciclo Explorar, Criar e Compartilhar, que estimula os estudantes a conhecer ferramentas e conceitos, desenvolver projetos e divulgar as soluções construídas. De acordo com a descrição metodológica do programa, a proposta articula Clubes de Ciência e Tecnologia, equipes estudantis, mentoria docente, aprendizagem baseada em projetos, produção de sequências didáticas e compartilhamento de práticas em rede. Nos laboratórios, são formadas equipes com cerca de dez estudantes. Cada grupo pode trabalhar com diferentes temas. “As equipes podem ter como tema robótica, lançamento de foguete, observação do céu, biologia e várias temáticas. Durante o calendário escolar, vão participar de eventos, treinamentos, feiras e competições”, afirma o professor.
A metodologia prevê que os estudantes desenvolvam projetos ao longo do ano letivo, com o acompanhamento de um professor mentor. As equipes também participam de atividades de formação, mostras e desafios, nos quais apresentam soluções para problemas propostos.
Laboratórios aproximam ciência e currículo
Os laboratórios maker previstos pelo programa Mais Ciência na Escola contam, de modo geral, com equipamentos como impressora 3D, cortadora a laser, kits de robótica baseados em Arduino e Micro:bit, além de materiais de eletrônica. Esses recursos podem ser utilizados tanto pelas equipes dos Clubes de Tecnologia quanto pelos professores em atividades vinculadas aos componentes curriculares. A proposta não é restringir os laboratórios a uma área específica, mas permitir que docentes de diferentes campos do conhecimento incorporem práticas investigativas e de prototipagem às aulas.
Um professor de Geografia, por exemplo, pode utilizar sensores para coletar dados ambientais; um professor de Química pode desenvolver atividades sobre condutividade elétrica; e um professor de Matemática pode trabalhar medidas, estatística e resolução de problemas por meio de projetos práticos. Para Glauco, um dos principais diferenciais do programa é fazer com que os projetos desenvolvidos pelas equipes possam beneficiar outros estudantes da escola. “Todos os trabalhos que os alunos desenvolvem, os projetos, vão depois gerar sequências didáticas que os professores vão poder usar na sala de aula com todos os alunos da escola”, explica.
Embora cada equipe seja formada, em média, por dez estudantes, os resultados não ficam limitados a esse grupo. Professores de diferentes áreas podem participar como consultores ou orientadores e adaptar os projetos para trabalhar com suas turmas.
Projeto-piloto reúne 11 escolas em Blumenau Como os 15 laboratórios previstos para o IFSC pelo programa Mais Ciência na Escola ainda estão em fase de implantação, o SC Cria+ iniciou um projeto-piloto em parceria com a Secretaria de Estado da Educação. A experiência está sendo realizada na Regional de Blumenau e reúne 11 escolas estaduais que já possuem laboratórios maker. O piloto permite testar a metodologia, acompanhar o trabalho das equipes e identificar ajustes antes da expansão para outras regiões.
A metodologia está organizada de acordo com o calendário escolar. Primeiro, são formadas as equipes, com atenção ao protagonismo dos estudantes e à continuidade dos grupos ao longo dos anos. Depois, os participantes passam por uma capacitação e iniciam encontros semanais acompanhados por um professor mentor.
A expectativa é que as equipes sejam renovadas gradualmente, com a saída de estudantes que concluem a etapa escolar e a entrada de novos integrantes. Dessa forma, o grupo mantém suas atividades e sua experiência acumulada. “Depois da composição da equipe, eles passam por uma capacitação. Em seguida, têm um calendário em que semanalmente ocorrem encontros com o professor, que atua como mentor da equipe”, detalha Glauco. Após a etapa de formação, os estudantes desenvolvem os projetos e participam de eventos. O calendário inclui uma mostra, na qual apresentam o que foi produzido, e um desafio, em que precisam elaborar uma solução para um problema proposto.
Mostra em Gaspar marca próxima etapa
A Mostra SC Cria+ da Regional de Blumenau está prevista para o dia 23 de outubro, no Câmpus Gaspar do IFSC. O evento deverá reunir as 11 escolas participantes do projeto-piloto. Durante a mostra, os estudantes apresentarão os trabalhos desenvolvidos pelas equipes. “E no dia 5 de dezembro teremos o desafio, em que eles vão apresentar e competir com as soluções desenvolvidas”, completa o professor.
Essas atividades integram a metodologia que está sendo validada no projeto-piloto. A intenção é que o modelo possa ser replicado em outras regionais, respeitando as características, os interesses e a infraestrutura de cada rede de ensino.
Protagonismo dos estudantes
O SC Cria+ busca colocar os estudantes no centro do processo de aprendizagem. Em vez de apenas reproduzir conteúdos ou seguir instruções prontas, os participantes são estimulados a identificar problemas, propor soluções, construir protótipos, testar hipóteses e compartilhar resultados. Para Glauco, a aproximação com a ciência e a tecnologia também pode ampliar as perspectivas dos estudantes sobre seu próprio futuro. “Eu quero que os alunos possam ter um horizonte além do que eles só conseguem ver na escola deles. Que consigam entender o que tem dentro do IFSC e o que podem desenvolver como potencial de vida”, afirma.
O professor destaca ainda que a participação nos projetos pode ajudar os estudantes a reconhecer interesses e habilidades que nem sempre aparecem nas atividades tradicionais. “A gente preza bastante por que o aluno possa se descobrir, descobrir suas potencialidades e se descobrir participando dos projetos”, completa. Além da aprendizagem de conteúdos e ferramentas, o programa pretende aproximar os estudantes da educação profissional, científica e tecnológica. A expectativa é que parte desses jovens considere, futuramente, cursos do IFSC ou de outras instituições de ensino superior. “Esse é um grande objetivo do projeto: trabalhar com o aluno do ensino básico, do ensino fundamental, antes mesmo de ele estar no IFSC ou na universidade”, explica Glauco.
Expansão prevista para 2027
A etapa atual do projeto-piloto será concluída ao final do ano. A partir de 2027, o IFSC deverá iniciar a implantação dos 15 laboratórios previstos no programa Mais Ciência na Escola. Os espaços serão distribuídos em diferentes regiões de Santa Catarina.
A intenção é aplicar a metodologia do SC Cria+ nas escolas que receberão os laboratórios, ampliando o alcance do programa para além da experiência de Blumenau. A Universidade Federal da Fronteira Sul também poderá desenvolver a proposta com as escolas atendidas pelo projeto sob sua responsabilidade.
Além disso, a Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis demonstrou interesse em conhecer e aplicar a metodologia. Segundo Glauco, considerando as escolas da Regional de Blumenau, as unidades atendidas pelo Mais Ciência na Escola e a possível participação da rede municipal da Capital, o programa poderá alcançar cerca de 40 escolas no próximo ano.
Como cada equipe reúne aproximadamente dez estudantes, a estimativa inicial é de pelo menos 400 alunos diretamente envolvidos.
Plataforma vai reunir materiais do programa
O SC Cria+ também prevê a criação de um ambiente virtual com materiais, orientações e recursos para apoiar a implementação da metodologia. A plataforma deverá funcionar como um ecossistema de formação e consulta para escolas, professores e equipes regionais.
A ideia é permitir que as redes interessadas possam conhecer os procedimentos, acessar os conteúdos e aplicar parte da metodologia de forma autônoma. Também será possível solicitar o apoio do IFSC durante o processo de implantação. “Estamos desenvolvendo todo um ambiente, um ecossistema, uma plataforma on-line em que vai estar tudo disponível. Eles poderão consultar e aplicar por conta própria ou chamar o IFSC para ajudar na implantação”, explica Glauco. A proposta amplia as possibilidades de participação. Uma regional poderá estruturar um laboratório e solicitar apoio do IFSC especificamente para a formação dos professores, a organização das equipes ou a apresentação da metodologia.
Educação em rede
A oficina realizada em Florianópolis reforçou o papel dos NTEs como articuladores da educação digital nas escolas catarinenses. Ao conhecerem o Micro:bit, o projeto-piloto de Blumenau e os princípios do SC Cria+, os profissionais podem apoiar a formação de professores e a criação de novas equipes em outras regiões. O encontro também permitiu a troca de experiências entre as escolas e os representantes da rede estadual. Segundo Glauco, após a atividade, coordenadores de outras regionais procuraram a equipe do programa para manifestar interesse em implantar a proposta. “Outros coordenadores de outras regionais já nos procuraram porque querem também implantar isso na região deles. Foi bem bacana”, relata.
Com a expansão planejada, o SC Cria+ pretende consolidar uma rede de educação científica, tecnológica e criativa, conectando laboratórios, professores, estudantes e instituições de ensino. A proposta combina infraestrutura, formação docente, protagonismo discente e compartilhamento de práticas. Dessa forma, os laboratórios maker deixam de ser espaços utilizados apenas em ações pontuais e passam a integrar uma estratégia permanente de aprendizagem, investigação e criação nas escolas públicas.