ENSINO Data de Publicação: 15 abr 2026 16:05 Data de Atualização: 17 abr 2026 08:37
A acessibilidade na construção civil muitas vezes é resumida à instalação de rampas e corrimões, mas a inclusão verdadeira exige um olhar muito mais profundo e focado no usuário. Esse foi o tema central da palestra "Além da Acessibilidade: a inclusão como estratégia e responsabilidade na construção civil", realizada nesta terça-feira (14) no auditório do Câmpus Florianópolis do IFSC.
O evento fez parte de uma aula aberta da unidade curricular de Instalações Especiais. A organizadora, professora Milena de Mesquita Brandão, do curso Técnico em Edificações, destacou a importância de trazer a discussão para a instituição e valorizou a trajetória da palestrante, que é egressa do próprio câmpus. "É uma convidada especial hoje para tratar do tema da acessibilidade espacial. Ela já é da casa, foi nossa estudante aqui no curso Técnico em Edificações há alguns anos. E o tema que vai abordar é muito importante e é bom que os estudantes tenham contato logo cedo", disse.
Atualmente doutora em Arquitetura e Urbanismo, Gabriela Vargas Rodrigues atua como pesquisadora na área de tecnologia assistiva, autismo e design inclusivo. Ao iniciar sua fala, ela apresentou dados sobre a baixa presença de pessoas com deficiência no setor, mostrando que, das 34 mil atuantes em Santa Catarina em 2024, apenas cerca de 1,5% está na construção civil. "Esse é um número bem baixo, ainda mais se a gente compara com a indústria. E por que será que esse número é baixo? A gente precisa refletir sobre isso. Será que o mercado da construção civil não está sendo inclusivo? Ou será que as pessoas não estão procurando? A gente precisa fazer com que o espaço seja acessível para que elas consigam ocupar as suas vagas", provoca.
O desafio da neurodiversidade nos projetos
Um dos focos principais do evento foi o conceito de neurodiversidade. Gabriela explicou que a norma brasileira de acessibilidade (NBR 9050) foca majoritariamente em aspectos físicos, mas que as barreiras para pessoas neurodivergentes costumam ser outras, exigindo atenção individualizada. "Então, de repente ele pode buscar esse ruído ou ele precisa tirar esse ruído. A textura, ela pode ter uma rejeição ou pode ter uma busca para essa tal textura. Tudo isso é válido num projeto", comenta.
Para tornar um projeto verdadeiramente inclusivo, a arquiteta apontou a necessidade de planejar a organização espacial. Ela explicou que o wayfinding — a capacidade de as pessoas se orientarem mentalmente no espaço — é crucial para evitar crises de ansiedade. "Às vezes essa falta de previsibilidade, que é essa falta de que tá ali escrito, organização, previsibilidade, isso pode gerar algum tipo de descontrole na pessoa que tem algum tipo de neurodivergência. Então, todos esses fatores que às vezes passam despercebidos pela gente, podem ser um fator aí estressante dentro do projeto", complementa.
O poder do conforto sensorial e das cores
Além da previsibilidade arquitetônica, projetar para incluir significa gerenciar os estímulos. Ao final da apresentação, Gabriela reforçou que o controle da luz, do som e a aplicação estratégica de tonalidades nos ambientes são diferenciais para garantir o bem-estar do usuário e o sucesso do projeto inclusivo. "Iluminação, acústica e organização são elementos-chave para gente garantir ou fazer com que chegue mais próximo de uma inclusão de fato das pessoas neurodivergentes. O uso intencional das cores também é importante, as mais claras reduzem o stress. Então, geralmente o azul clarinho, ou o cinza, ou o amarelo, ou seja, cores claras trazem essa redução no incômodo sensorial", completa.
A palestra completa teve transmissão em nosso canal no youtube. Veja na íntegra: